Poucos dias atrás fui visitar a exposição Comciência da artista australiana Patricia Piccinini, que está aqui no CCBB-BH (Ficará lá até Janeiro, recomendo). A exposição é sensacional, causa um estranhamento e uma chamada à reflexão muito forte [Não sei se era essa a intenção da artista, mas pra mim foi isso]. Provoca um incômodo que vem de dentro e nos perturba. Mas eu queria chamar atenção para o comportamento das pessoas mediante à exposição e o quanto elas também me causaram estranhamento.

No livro Comentários da Sociedade do Espetáculo, Guy Debord atenta-se para a idolatria que a sociedade tem com as imagens. Ele relata sobre a importância das imagens para as pessoas e o quanto isso afeta o comportamento delas. Debord escreveu o livro na década de 60 e mesmo depois de tantos anos nunca foi tão atual. Durante a exposição Comciência, eu vi pessoas mais preocupadas em “se” fotografar junto às obras, do que realmente prestar atenção no que estava diante deles. Isso me deixou chocada.

Apesar de eu já ter presenciado essa cultura exacerbada do selfie em outras ocasiões, naquele dia foi diferente, pois as criaturas criadas por Patricia são seres híbridos, que até certo ponto, deveriam gerar repulsa das pessoas e não serem parte do cenário de um selfie.

Mas o desespero do selfie tem uma explicação, acredito eu. O ser humano aparentemente busca formas de diferenciar sua existência das demais e faz isso por meio da agregação dos signos em sua personalidade. Aqueles momentos de selfie para mim, representavam uma tentativa desesperada das pessoas em provar para elas mesmas, e logicamente para seus “amigos e seguidores”, que elas são cultas e interessadas na arte. E para isso, nada melhor do que se fotografar junto à arte, como se permanecer naquele ambiente e provar as os demais que você estava lá, o fizesse um pouco menos massificado e culto.

Infelizmente, toda essa busca é volátil. Só por estar perto das obras não nos tornamos mais cultos, mais sensíveis ou mais sábios. E eu queria pedir a todos os comunicadores e principalmente aos publicitários, atenção...

Como profissionais temos que estar muito cientes sobre o que acontece em situações como estas, para não comermos os churros antes de vendê-los.